A roda de choro é o coração vivo do chorinho brasileiro. Entenda a tradição, o papel do pandeiro e assista à edição de junho da Contemporânea.

Roda de choro: onde a tradição do chorinho continua pulsando

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Numa tarde de sábado, num boteco qualquer do Centro do Rio, seis ou sete músicos se sentam em volta de uma mesa. Não tem palco. Não tem setlist impresso. Alguém puxa um Pixinguinha, o pandeiro entra marcando, e em poucos minutos o bar inteiro para pra ouvir. Isso é uma roda de choro, e é mais ou menos assim que esse gênero sobrevive há mais de cem anos.

A Contemporânea acabou de transmitir a edição de junho do seu encontro de choro, e dá pra sentir, mesmo pela tela, por que esse formato continua de pé. Antes de você assistir (o vídeo está no fim do post), vale entender o que faz esse tipo de encontro ser tão especial, de onde vem essa tradição e por que o pandeiro tem um lugar tão central nela.

Esse texto é pra quem gosta de música brasileira de verdade e quer entender o choro por dentro, não só de ouvido. Se você só procurava o link da live, pode pular direto pro fim. Mas se ficar, eu prometo: a próxima roda que você ouvir vai fazer mais sentido.

O que é uma roda de choro, na prática

Uma roda de choro não é um show. Essa é a primeira coisa a entender. Num show existe quem toca e quem assiste, com uma linha clara separando os dois lados. Na roda, essa linha some. Os músicos sentam em círculo (daí o nome), de frente uns pros outros, e o público fica em volta, perto, às vezes encostado na mesa. Essa proximidade muda tudo: você ouve a respiração do flautista, o couro do pandeiro batendo, a corda do cavaquinho sendo dedilhada. Nenhuma gravação reproduz isso direito.

É um encontro aberto. Em muitas rodas, qualquer músico pode chegar com seu instrumento e pedir pra entrar, o que o pessoal chama de dar uma canja. O repertório não vem pronto: ele sai na hora, puxado por quem está ali, numa conversa musical que pode durar horas. A roda do Bar do Bacalhau, em São Paulo, no bairro do Sumaré, já chegou a juntar de 300 a 400 pessoas numa única noite de segunda-feira, de graça, com os músicos tocando de forma voluntária.

Tem um detalhe que muita gente de fora não percebe: a roda é, antes de tudo, um lugar de aprendizado. É ali que se aprende o repertório e a levada do choro, ouvindo quem chegou primeiro, como conta bem o Jornal da USP ao traçar a trajetória do gênero.

De onde vem o choro

O choro nasceu no Rio de Janeiro, na segunda metade do século XIX. É considerado o primeiro gênero urbano genuinamente brasileiro, o que já diz bastante sobre o seu peso. Surgiu de um jeito particular de tocar: músicos cariocas pegavam polcas, valsas e schottisches europeias e executavam tudo com uma levada mais chorosa, mais sentida. Daí o nome, que engana muita gente, porque o choro, na prática, costuma ser rápido e alegre. A formação inicial era enxuta, só flauta, violão e cavaquinho, e foi ganhando corpo com o tempo, incorporando o bandolim, o violão de sete cordas e o pandeiro que conhecemos hoje.

O grande patrono do gênero é Pixinguinha, nascido em 23 de abril de 1897. Não por acaso, o Dia Nacional do Choro é comemorado nessa data, oficializada em 2000. Se você quer um ponto de partida pra ouvir, comece por ele e depois vá pra Jacob do Bandolim, Waldir Azevedo, Ernesto Nazareth. A roda mais lendária da história aconteceu, aliás, na casa do próprio Jacob, em Jacarepaguá.

O pandeiro no coração da roda

Aqui é onde a conversa fica interessante pra gente da Contemporânea. Toda roda tem uma seção rítmica, e o instrumento que segura essa base é o pandeiro. Os outros (flauta, bandolim, cavaquinho, violão de seis cordas e o violão de sete cordas fazendo as linhas graves) constroem a melodia e a harmonia por cima. O pandeiro é quem dita o pulso.

E não é um pulso simples. O pandeiro do choro pede um controle de dinâmica que poucos instrumentos de percussão exigem: o músico precisa variar timbre e volume usando os dedos, a palma e a base da mão, tudo isso mantendo a levada firme do começo ao fim de uma música. Acho que é o instrumento mais subestimado da roda. As pessoas olham pro bandolim ou pra flauta fazendo o solo brilhante, mas quem tira o chão do pandeirista descobre rápido que a roda inteira desmonta. Pensa no pandeiro como a bateria do choro: ele não aparece pra roubar a cena, mas é ele que segura o tempo, dá o balanço e decide se a música vai soar arrastada ou viva. Um bom pandeirista muda o encontro inteiro sem tocar uma única nota de melodia.

Não é à toa que a gente leva o pandeiro tão a sério por aqui. Se você quer entender melhor esse instrumento, já mostramos como o pandeiro carrega a tradição da percussão brasileira e também a diferença entre tamborim e pandeiro em outros posts.

Por que o choro virou Patrimônio Cultural (e o que isso muda de verdade)

Em fevereiro de 2024, o IPHAN reconheceu o choro como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. É um selo importante, e mudou coisas concretas: abriu caminho pra cursos em escolas públicas, editais para compra de instrumentos e mais apoio para os encontros em espaços públicos.

Mas vou ser honesto sobre uma coisa. Título de patrimônio não mantém um gênero vivo sozinho. O que segura o choro de pé não é o documento do IPHAN, é o encontro acontecendo toda semana, é o moleque de quinze anos que senta do lado do veterano de setenta e tenta acompanhar. Como uma pesquisadora do gênero resumiu bem, a cultura é viva e já prevê a própria mudança; o que faz ela existir é ter alguém ali fazendo. O reconhecimento ajuda, dá visibilidade e verba. O trabalho de verdade, porém, continua sendo dos chorões, semana após semana, na base do toque.

A roda como escola viva

Volto pra ideia da roda como lugar de aprendizado, porque é o ponto que mais me interessa. Quase ninguém aprende choro só na partitura. Aprende na prática, errando junto, pegando a levada de quem já sabe. É um aprendizado que não cabe em apostila: você senta, escuta, erra, tenta de novo na semana seguinte e um dia percebe que já está acompanhando sem pensar. Em São Paulo, o Centro Cultural São Paulo mantém uma roda regular justamente com essa função, reunindo de estudantes a músicos consagrados na mesma sala.

É um modelo que sobreviveu ao rádio, à televisão, ao streaming, a tudo. Nos anos 1950 e 1960, quando o samba urbano dominou as rádios, o choro quase sumiu do mainstream, mas continuou pulsando nos círculos amadores, nas tais rodas em casas e botecos. Foi exatamente isso que salvou o gênero. E é exatamente isso que uma roda transmitida hoje, pela internet, segue fazendo: levando o encontro pra muito mais gente do que cabe num bar.

A edição de junho da Roda de Choro Contemporânea

A mais recente edição, gravada em junho, é mais um capítulo desse mesmo movimento. É cerca de uma hora e meia de música no formato que essa tradição pede: gente boa tocando junto, sem firula de produção, com o choro no centro de tudo.

E aqui vai o convite de verdade: a roda não vive só na tela. Todo último sábado do mês, a Contemporânea realiza a sua roda presencialmente, na loja RS Musical, na Rua General Osório, 46, em Santa Ifigênia, São Paulo. É aberta a todo mundo. Se você toca, leva o instrumento e senta junto; se só quer ouvir, chega mais e puxa uma cadeira.

Por enquanto, dá o play na edição de junho. Presta atenção no diálogo entre os instrumentos e repara em como o pandeiro costura tudo por baixo. Depois você me diz se não faz mais sentido agora.

Perguntas frequentes sobre roda de choro

O que é uma roda de choro?

É um encontro informal de músicos que tocam choro sentados em círculo, em geral em bares, praças ou casas. Não há separação rígida entre palco e plateia, e o repertório sai na hora. Costuma ser aberta: outros músicos podem chegar e participar.

Quais instrumentos formam uma roda de choro?

A formação clássica reúne flauta, cavaquinho, bandolim e violão de seis cordas, com o violão de sete cordas fazendo as linhas graves e o pandeiro na base rítmica. Clarinete, saxofone e outros sopros também aparecem com frequência.

Preciso ser músico profissional para participar?

Não. Uma das marcas dessas rodas é justamente misturar amadores e profissionais, iniciantes e veteranos, na mesma mesa. Em muitos encontros, quem está aprendendo é incentivado a dar uma canja.

Quando é o Dia Nacional do Choro?

É 23 de abril, data de nascimento de Pixinguinha. A comemoração foi oficializada no ano 2000 e virou um marco anual para os chorões de todo o país.

Onde acontece a roda de choro da Contemporânea?

Todo último sábado do mês, presencialmente, na loja RS Musical, na Rua General Osório, 46, em Santa Ifigênia, São Paulo. A entrada é aberta: dá pra ir só ouvir ou levar o instrumento e participar.

Para ouvir mais

Se esse universo te pega, segue o canal da Contemporânea no YouTube e fica de olho. A próxima edição já vem vindo, e a melhor forma de manter o choro vivo é simples: ouvir, compartilhar e aparecer.

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